O seu telhado é de que?

 

A Suíça está lutando atualmente para se recuperar de um passo em falso dado em 2006, quando foi aprovada a lei que permite a pequenos criminosos pagarem dias-multa em vez de ficarem na prisão. A pena é calculada em dias e convertida para um valor em francos, de acordo com a gravidade do crime e a condição econômica do reu. O acusado só tem que pagar e está de volta à rua. Com as prisões suíças abarrotadas e a população contribuinte desgostosa dos custos que um detento representa para a sociedade, a lei parecia a solução perfeita. Não ocorreu à população naquela época que a lei estivesse dizendo: ‘tudo bem cometer crimes, você pode comprar seu direito a estar fora da lei.’ Três anos depois, com a criminalidade e a impunidade subindo de mãos dadas, a lei está para ser reformada. Em grande medida porque os traficantes de drogas sem visto, que por vezes também cometem pequenos furtos, ficaram em um limbo onde a lei não pode alcançá-los. Muitas vezes eles chegam à Suíça e destroem seus documentos, evitando assim que a sua nacionalidade seja descoberta. Ou senão, vem de países com os quais a Suíça não tem acordo para ‘devolução’ de imigrantes ilegais, ou ainda de países em conflito, caracterizando-os como refugiados. Como é impossível estabelecer a identidade e as posses desses criminosos, eles acabam muitas vezes nem pagando os dias-multa e são simplesmente devolvidos à rua depois de fichados. Nos sessenta anos da convenção de Direitos Humanos assinada na cidade, Genebra está dividida a respeito do que fazer com os imigrantes ilegais que cometem crimes. Um dispositivo de lei permite que os imigrantes ilegais sejam encarcerados ‘administrativamente’ por até 24 meses aguardando embarque de volta a seu país de origem. Porém, as autoridades hesitam em aplicá-lo, pois abriria espaço para críticas severas ao cumprimento dos direitos humanos, justo em Genebra. Depois do pesadelo de Guantánamo, ninguém quer ser associado a prisão sem julgamento. Ao mesmo tempo, e com razão, a população está perdendo a paciência com a presença dos traficantes nas ruas. Há lugares que começam a ser evitados pelos pedestres, pois ‘pertencem’ a eles. E ninguém parece encontrar, ou estar disposto a encontrar, uma saída ponderada. De um lado, os partidos mais ao centro e à esquerda se recusam a aplicar o dispositivo de detenção administrativa. De outro, os partidos de direita exigem a expulsão dos traficantes, ou o uso amplo da prisão administrativa, vendo nela uma forma de afastar ‘por longo prazo’ os delinquentes das ruas. Às vésperas das eleições para o Legislativo e o Executivo cantonais (chamados aqui Grand Conseil e Conseil d'État), as propagandas dos partidos extremitas aparecem recheadas de raiva e promessas mirabolantes.

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O discurso do ódio não está reservado aos traficantes de drogas sem visto. Um dos alvos preferidos dos partidos de extrema direita são os ‘frontaliers’ – os franceses que trabalham em Genebra. O jornalzinho de um desses partidos chegou ao extremo de publicar uma fotografia do estacionamento de um órgão administrativo de Genebra, mostrando em detalhes as placas dos carros estacionados, muitas delas francesas, para ilustrar como os franceses estão ‘roubando’ os empregos deles, até mesmo dentro do governo. Em um cantão que está travando uma queda de braço com o Google para garantir o respeito às leis de privacidade no Google Street View, exigindo que o gigante da internet apague fachadas, rostos, ruas particulares e outros quetais, é no mínimo intrigante que um partido político se sinta no direito de publicar as placas dos carros dos funcionários do governo. Alguns partidos falam em uma espécie de conspiração dos franceses que trabalham em Genebra, afirmando que eles estariam demitindo funcionários suíços para contratar mais compatriotas, e argumentam que é preciso impedir os franceses de ocuparem postos em Genebra para fazer baixar o desemprego na população suíça.

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Tem mais: sobra até mesmo para os vizinhos do lado de cá da fronteira: saiu uma reportagem em um dos jornais distribuídos gratuitamente pela cidade exigindo um esclarecimento por parte da administração de Genebra, pois um profissional vindo do Cantão vizinho, o Vaud, foi contratado para um cargo alto no departamento de comunicação de Genebra. O título do texto perguntava: ‘nenhum genevois apto?’

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Tudo isso para mostrar como, também aqui neste pequenino país, o discurso do ódio ao ‘outro’ continua forte, aliás, vem ficando mais forte. Muito mais fácil identificar o outro como a fonte dos problemas, com toda certeza. Para os partidos de extrema direita, antes de mais nada, eu tenho algumas perguntas. O Cantão de Genebra tem mesmo profissionais qualificados para ocupar todos esses postos atualmente ocupados por franceses ou suíços de outro Cantão? Como uma cidade que se pretende cosmopolita e se orgulha de ser sede de tantas organizações internacionais pode pensar em se constituir como tal fechando as fronteiras para os trabalhadores de outros países que vem aqui contribuir com a economia e pagar impostos? Finalmente, com relação aos imigrantes ilegais que estão nas ruas traficando drogas: lei da oferta e da procura - se eles estão vendendo, é porque alguém está comprando. Que tal educar a população, tanto a de origem suíça quanto os imigrantes, para prevenir o consumo de drogas? E ainda: esses dealers que ocupam as ruas são só a ponta visível do tráfico. Para os 'donos' do tráfico, eles são descartáveis: prendeu ou deportou um, chega outro para ocupar seu lugar. Enquanto houver miséria em seus países de origem, eles vão continuar a chegar. Quem é que está acima deles na hierarquia do tráfico? É bastante provável que as pessoas que estão ganhando o grosso do dinheiro são pessoas com visto de permanência ou livre trânsito pelo país e por seus hotéis e restaurantes freqüentados pelo jet-set, se é que não são mesmo suíças. Que tal pensar na origem dos diamantes vendidos nas joalherias de Genebra e dar uma espiada em como vivem as pessoas nesses países?