Mudança de endereço
Pessoal, cansei desta ferramenta da UOL que me fazia perder um mega tempo cada vez que ia postar alguma coisa e mudei para o wordpress: http://maisumlapislazuli.wordpress.com/ Espero ter mais sucesso desta vez, atualizem aí nos favoritos de vocês e visitem! Abraços Alice
Escrito por Alice Stock às 12h00
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O seu telhado é de que? A Suíça está lutando atualmente para se recuperar de um passo em falso dado em 2006, quando foi aprovada a lei que permite a pequenos criminosos pagarem dias-multa em vez de ficarem na prisão. A pena é calculada em dias e convertida para um valor em francos, de acordo com a gravidade do crime e a condição econômica do reu. O acusado só tem que pagar e está de volta à rua. Com as prisões suíças abarrotadas e a população contribuinte desgostosa dos custos que um detento representa para a sociedade, a lei parecia a solução perfeita. Não ocorreu à população naquela época que a lei estivesse dizendo: ‘tudo bem cometer crimes, você pode comprar seu direito a estar fora da lei.’ Três anos depois, com a criminalidade e a impunidade subindo de mãos dadas, a lei está para ser reformada. Em grande medida porque os traficantes de drogas sem visto, que por vezes também cometem pequenos furtos, ficaram em um limbo onde a lei não pode alcançá-los. Muitas vezes eles chegam à Suíça e destroem seus documentos, evitando assim que a sua nacionalidade seja descoberta. Ou senão, vem de países com os quais a Suíça não tem acordo para ‘devolução’ de imigrantes ilegais, ou ainda de países em conflito, caracterizando-os como refugiados. Como é impossível estabelecer a identidade e as posses desses criminosos, eles acabam muitas vezes nem pagando os dias-multa e são simplesmente devolvidos à rua depois de fichados. Nos sessenta anos da convenção de Direitos Humanos assinada na cidade, Genebra está dividida a respeito do que fazer com os imigrantes ilegais que cometem crimes. Um dispositivo de lei permite que os imigrantes ilegais sejam encarcerados ‘administrativamente’ por até 24 meses aguardando embarque de volta a seu país de origem. Porém, as autoridades hesitam em aplicá-lo, pois abriria espaço para críticas severas ao cumprimento dos direitos humanos, justo em Genebra. Depois do pesadelo de Guantánamo, ninguém quer ser associado a prisão sem julgamento. Ao mesmo tempo, e com razão, a população está perdendo a paciência com a presença dos traficantes nas ruas. Há lugares que começam a ser evitados pelos pedestres, pois ‘pertencem’ a eles. E ninguém parece encontrar, ou estar disposto a encontrar, uma saída ponderada. De um lado, os partidos mais ao centro e à esquerda se recusam a aplicar o dispositivo de detenção administrativa. De outro, os partidos de direita exigem a expulsão dos traficantes, ou o uso amplo da prisão administrativa, vendo nela uma forma de afastar ‘por longo prazo’ os delinquentes das ruas. Às vésperas das eleições para o Legislativo e o Executivo cantonais (chamados aqui Grand Conseil e Conseil d'État), as propagandas dos partidos extremitas aparecem recheadas de raiva e promessas mirabolantes. * O discurso do ódio não está reservado aos traficantes de drogas sem visto. Um dos alvos preferidos dos partidos de extrema direita são os ‘frontaliers’ – os franceses que trabalham em Genebra. O jornalzinho de um desses partidos chegou ao extremo de publicar uma fotografia do estacionamento de um órgão administrativo de Genebra, mostrando em detalhes as placas dos carros estacionados, muitas delas francesas, para ilustrar como os franceses estão ‘roubando’ os empregos deles, até mesmo dentro do governo. Em um cantão que está travando uma queda de braço com o Google para garantir o respeito às leis de privacidade no Google Street View, exigindo que o gigante da internet apague fachadas, rostos, ruas particulares e outros quetais, é no mínimo intrigante que um partido político se sinta no direito de publicar as placas dos carros dos funcionários do governo. Alguns partidos falam em uma espécie de conspiração dos franceses que trabalham em Genebra, afirmando que eles estariam demitindo funcionários suíços para contratar mais compatriotas, e argumentam que é preciso impedir os franceses de ocuparem postos em Genebra para fazer baixar o desemprego na população suíça. * Tem mais: sobra até mesmo para os vizinhos do lado de cá da fronteira: saiu uma reportagem em um dos jornais distribuídos gratuitamente pela cidade exigindo um esclarecimento por parte da administração de Genebra, pois um profissional vindo do Cantão vizinho, o Vaud, foi contratado para um cargo alto no departamento de comunicação de Genebra. O título do texto perguntava: ‘nenhum genevois apto?’ * Tudo isso para mostrar como, também aqui neste pequenino país, o discurso do ódio ao ‘outro’ continua forte, aliás, vem ficando mais forte. Muito mais fácil identificar o outro como a fonte dos problemas, com toda certeza. Para os partidos de extrema direita, antes de mais nada, eu tenho algumas perguntas. O Cantão de Genebra tem mesmo profissionais qualificados para ocupar todos esses postos atualmente ocupados por franceses ou suíços de outro Cantão? Como uma cidade que se pretende cosmopolita e se orgulha de ser sede de tantas organizações internacionais pode pensar em se constituir como tal fechando as fronteiras para os trabalhadores de outros países que vem aqui contribuir com a economia e pagar impostos? Finalmente, com relação aos imigrantes ilegais que estão nas ruas traficando drogas: lei da oferta e da procura - se eles estão vendendo, é porque alguém está comprando. Que tal educar a população, tanto a de origem suíça quanto os imigrantes, para prevenir o consumo de drogas? E ainda: esses dealers que ocupam as ruas são só a ponta visível do tráfico. Para os 'donos' do tráfico, eles são descartáveis: prendeu ou deportou um, chega outro para ocupar seu lugar. Enquanto houver miséria em seus países de origem, eles vão continuar a chegar. Quem é que está acima deles na hierarquia do tráfico? É bastante provável que as pessoas que estão ganhando o grosso do dinheiro são pessoas com visto de permanência ou livre trânsito pelo país e por seus hotéis e restaurantes freqüentados pelo jet-set, se é que não são mesmo suíças. Que tal pensar na origem dos diamantes vendidos nas joalherias de Genebra e dar uma espiada em como vivem as pessoas nesses países?
Categoria: Contemporaneidades
Escrito por Alice Stock às 09h52
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Agora com contemporaneidades
Caros leitores, Este blog foi pensado para abrigar crônicas, porém, como a gente nunca sabe aonde é que a urgência em escrever vai nos levar, estou abrindo uma seção para abrigar textos mais relacionados a fatos e assuntos atuais. As crônicas continuam, alternando-se com estes textos sem uma ordem ou periodicidade pré-esabelecida. Espero que gostem deles também! Boa leitura.
Escrito por Alice Stock às 09h07
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A barbárie faz aniversário
Onde você estava no onze de setembro? Eu estava na faculdade de Jornalismo, assistindo a uma aula de radio, ou telejornalismo, não me lembro ao certo porque o professor era o mesmo. E era um professor que ficava atendendo celular e rádio durante a aula sem a menor cerimônia. Naquele dia o rádio dele apitou e ele interrompeu a aula, atendeu ali mesmo, e depois de conversar um pouco desligou, virou para a classe e disse: parece que um avião bateu em uma antena em Nova York – e continuou dando aula! Quando a aula a acabou, todas as televisões disponíveis no departamento estavam ligadas. As pessoas se amontoavam em volta delas e ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo. Eu tinha uma aula mais tarde na faculdade de Filosofia, e fui até lá, sem ter ainda a noção de quão crucial seria aquele dia na História. Meu celular tocou, minha mãe estava em casa e queria que eu voltasse também, ela achava melhor não ficarmos na rua. Eu achei aquilo uma bobagem, mas de fato não ia ter clima para assistir aula e acabei decidindo voltar para casa. No caminho, passei na frente do centro acadêmico de Ciências Sociais e lá também a TV estava ligada cheia de estudantes em volta, mas eles, ao contrário dos de Jornalismo que assistiam atônitos, aplaudiam e assoviavam e colocaram na porta do Centro um papel dizendo: fechado para a terceira guerra mundial. É por isso que eu tenho um pé atrás com estudantes de ciências sociais, ainda mais da USP. Tenho bons amigos que estudaram lá, mas tem tanta gente com uma mentalidade embotada que dá raiva, no onze de setembro eu quis entrar no CA deles e dar uns tapas na cara daqueles idiotas. Caso eles não tivessem percebido, tinha gente morrendo em Nova York, republicanos e democratas, executivos (capitalistas, sim) e faxineiras, bombeiros, gente morrendo pela única razão de estar ali, uma peça no esfarrapado sonho americano. Alguém é capaz de ficar feliz ao assistir a esse horror que a minha geração não conhecia? Cheguei em casa e estavam a minha mãe e minhas irmãs assistindo a CNN. Minha irmã menor, ainda bem criança, sentada em cima da mesa de centro. Aquilo me fez mal, minha irmã criancinha assistindo as Torres desmoronando. Depois, as imagens dos foguetes sendo disparados no Afeganistão – aquilo me marcou tanto quanto a queda das Torres, a resposta errática e errônea dos Estados Unidos. Ainda estava na faculdade quando, dois anos depois, o Bush atacou Bagdá depois daquele ultimato. Estávamos fechando uma edição do Jornal do Campus, faz parte das disciplinas obrigatórias, e ia ser uma noite longa. De novo, refresh e refresh e refresh no site da CNN entre uma tarefa e outra. E aí, começou? - o pessoal se perguntava. Foi com o coração muito pesado que vi a guerra do ‘Iraque – parte 2’ começar. Parte 2 porque quando eu tinha aquele tamanhinho da minha irmã no onze de setembro, eu havia visto a Guerra do Golfo no Jornal Nacional e morrido de medo. Toda noite eu ia para a cama com medo de o Saddam Hussein explodir o mundo enquanto eu estivesse dormindo. Era aquele medo enorme, sem nada que pudesse me acalmar, imagino o mesmo que os americanos sentiram durante e depois do onze de setembro. O que não justifica, obviamente, passar por cima do Conselho de Segurança da ONU, uma das frágeis estruturas que nos restam para resolver as coisas de forma multilateral. Depois o Saddam acabou humilhado e enforcado, indo morrer no You Tube. Depois, Bush tambem saiu vaiado, num clima de já vai tarde. Em um diálogo emblemático dessa era, o personagem irlandes do Collin Farell em In Bruges está conversando com um ator americano, e o ator diz: 'sou americano, por favor não me condene por isso.' Os terroristas de True Lies e os libios que encomendam a bomba ao Dr Brown no De Volta para o Futuro parecem quase uma piada diante de tudo que veio depois... e agora sobrou para o Obama lidar com o fundo falso que virou o Afeganistão, um vortex de vidas e energia e dinheiro que os Estados Unidos criaram.
Escrito por Alice Stock às 08h43
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Tic, tac, laranjas
Mudar de país para uma cidade onde as coisas fecham às seis da tarde e durante todo o domingo é uma imersão em antropologia. Não é simplesmente mudar de país, como seria ir para Nova York ou Londres ou Buenos Aires. Além de se adaptar à língua, à cidade, às pessoas, existe o trabalho adicional de tentar ver a vida sob o ângulo de quem acha normal, e não entra em pânico, ao ver os supermercados e lojas baixarem as portas às seis e meia para reabrir no dia seguinte. O que é que essas pessoas fazem entre as seis da tarde e as oito da manhã, se não estão trabalhando nem gastando dinheiro? E o mais estranho, como pode uma cidade onde não existe delivery, nem de pizza, nem de comida chinesa, nem de coisa nenhuma. E até as urgências médicas são atendidas em um número de telefone por onde você agenda uma consulta para o dia seguinte. A noção de urgência das pessoas só pode ser diferente, ou elas são menos neuróticas que nós paulistanos. Só que, além disso, as pessoas usam seu tempo de um jeito diferente. Fico imaginando o que elas fazem, coisas como colecionar borboletas, jogar batalha naval ou estudar solfejo. Estudar solfejo até as onze da noite, daí dormir. Não pode ser que elas fiquem só assistindo televisão. Não sei o que elas fazem, mas sei que não é ir ao cinema. Já fui duas vezes, em duas estreias, e sempre o cinema estava 60% vazio. Também não sei como ganham dinheiro os donos dos cinemas daqui, vai que é por isso que o ingresso é tão caro. Elas também não vão jantar fora, porque os restaurantes só servem comida até as dez da noite. Até as dez da noite, e acham isso normal. O nosso vizinho, quando chega em casa, lava roupa. Dá para ouvir o barulho da máquina dançando. No começou eu pensei que fosse uma centrífuga industrial, daquelas que eu vi quando visitei a Esalq com a escola vários anos atrás. Daí me convenci de que era só uma máquina de lavar. Estava tão mais interessante imaginar o vizinho gerindo um laboratório secreto na parede ao lado, mais legal que estudar solfejo. No prédio em frente um senhorzinho italiano tem uma espécie de oficina, ele conserta móveis na calçada e vende laranjas. Sempre tem alguém conversando com ele, às vezes bem alto, em italiano. O senhorzinho trabalha na hora que bem entender, tem dia que já são dez horas e ele ainda não apareceu, outros dias estou na cozinha, depois das oito, e ouço suas marteladas. Ele me parece mais normal. Às vezes ele trabalha no domingo, às vezes não tem laranjas no cesto em frente à loja. Ele é mais inconstante do que o resto, mais provável. E eu sei o que ele faz depois das seis da tarde, ele faz o que der vontade, conserta móveis, descasca uma laranja, ou vai para casa descansar. O senhorzinho da loja em frente é a lembrança de que aqui também tem gente como eu, que não sabe viver que nem um cuco.
Escrito por Alice Stock às 09h18
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Variações sobre uma mesa posta
Queijo com goiabada, a família toda à mesa horas depois de ter acabado o almoço, os mosquitos pousando no fundo dos copos vazios de limonada, o cachorro abanando o rabo debaixo da mesa, fazendo a cadeira vazia andar cada vez mais para trás. O bolo de aniversário de nove anos de uma das minhas melhores amigas, com cobertura de marshmellow com chocolate, as moedinhas de chocolate da bombonière de outra melhor amiga, a babá de Nescau da minha mãe, o brigadeirão. Espetinho do Frango Assado, o rosbife com molho da casa da minha bisavó, a calda de sorvete que é da minha avó, da minha mãe, das minhas tias e agora é minha também. Chocolate meio amargo com menta, lasanha sem presunto, arroz com cereais, bolo de maçã, bacalhau e o cachorro em cima da cadeira lambendo os pratos vazios enquanto ninguém está olhando. Brownie, arroz basmati, bombom de cereja. A família que já não cabe em uma mesa, e a da minha nova casa grande demais, sempre com quatro lugares vazios. Tem gente que tem horror de mesa semi-posta, com jogo americano e guardanapo esquecidos, alguns livros, o caderno de esportes, o telefone sem fio. Tem gente que tem horror de cachorro, tem gente que deixa resto de comida no prato – e prefere jogar no lixo a dar para o cachorro. Tem gente que acha que é pecado deixar resto de comida no prato e gente que acha que é falta de educação não deixar. Tem gente que, se pudesse, não comia. Tem gente que, se pudesse, comia. Tem uns que vão vorazes para cima, achando que a comida vai tirar toda aquela raiva de dentro. Tem uns que comem, dizem, que nem passarinho. Tem os partidários da pizza de verdura, tem aqueles que acham que verdura na pizza é o fim. Tem os que se acham uma negação para a cozinha sem nunca ter cozinhado – chama-se preguiça, ou chama-se receio? Tem outros que não deixam ninguém cozinhar a não ser eles – chama-se presunção ou chama-se carência? Tem os que têm medo de encontrar bichos lavando a salada, tem os que preferem nem comer a salada. Tem o que sonha em abrir um restaurante, e aquele que às cinco da manhã já está de pé para abrir o restaurante. Rebarbas e cascas, caroços, bagaços, talos e folhas, pele, ossos, escamas. Uma cozinha é tão grande quanto um teatro.
Escrito por Alice Stock às 14h59
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Pensamentos livres sobre o tempo Da janela do meu trabalho, um relógio, no alto de um prédio, há não sei quanto tempo parado. Se ele mostrasse as horas, seriam sempre dez para as onze. Ele fica equilibrado em dois pilares como um x, bem parecidos com os cromossomos dos livros da escola, que poderiam ser também uma ampulheta vazia. Ora, duplamente inerte. Qualquer relógio parado marca a hora certa duas vezes por dia. Este estava correto quando os porteiros do prédio, não podendo abandonar o plantão, viram uma turba de jovens passar buzinando de antemão o ano novo. Também quando uma funcionária do prédio ergueu os olhos para descansar e voltou ao computador pensando que ainda teria que esperar pelo menos uma hora para poder aplacar sua fome. Ele poderia, entretanto, estar se movendo, muito vagarosamente, em direção ao fim do mundo que conhecemos. E vai tão devagar que algum dos vizinhos que tentasse ressabiado medir a diferença desistiria, nas fotos de um dia para o outro não se nota. Um dia alguém repara que são finalmente onze, acha que foi coincidência, e assim vão as coisas, já que ninguém vai parar a sua vida por causa de um relógio que se acredita parado. Seria coincidência, o vento pode ter transportado as horas, brincando conosco. Ou poderia ser o zelador do prédio embaixo do relógio, ter mudado os ponteiros para variar um pouco a paisagem, se bem que ele de lá de baixo não veria, então para que? Se alguma decisão fosse tomada, seria provavelmente a de se reativar o relógio, para que parasse de dar sustos. Em um conselho de amigos do bairro se decidiria pela reativação do relógio, com patrocínio de várias empresas, graças a que se pintaria novamente os seus ponteiros pretos no fundo branco, com um novo mecanismo de controle, e seria reinaugurado aquele que já fora uma referência no bairro, esse sinal sutil da urgência. Um relógio tão grande parado em São Paulo é uma coisa incômoda, parece uma falta de consideração, como puderam desativar o relógio e mantê-lo lá, para confundir as pessoas? Para que mais um adorno, e ainda inútil? Desnecessário dizer que ele é feio, quadrado como antigamente e com ponteiros pesados e grossos, sem luz e sem charme, um despertador de camelô gigante. Só que ele não apita, em vez de dar alarme para nos mostrar o passar das horas, ele faz é parar. O modo de nos mostrar que chegou a hora (para cada um, de alguma coisa) é o seu silêncio. É na verdade como um grande alarme soando, bem à vista de todo mundo, e que diz: ainda há tempo, ainda há tempo, ainda há tempo. (Ou talvez quem diga isso sejam os relógios em funcionamento, com seus ponteiros de segundos. Este parado diria então: chegou o tempo, chegou o tempo, chegou o tempo). Há pessoas que não tem nenhum dinheiro, mas não há ninguém que não possua tempo algum. Exceto, talvez, os que são escravos. Talvez isso seja o mais lastimável, que todos nós possuamos tempo, para usar como nos convier, e que não saibamos o que fazer com ele, sendo a primeira tentativa de empregá-lo em alguma coisa o seu aprisionamento em relógios ou ampulhetas, caminho totalmente errôneo, pois, em vez de nos dar mais tempo, em vez de libertá-lo para que seja usado, começamos por tentar medi-lo, em vez de vivê-lo. Na ignorância do que mais poderíamos fazer, passamos o tempo a contá-lo, como se jogássemos para fora sem cessar a água que entra pelos buracos no fundo do barco, na esperança de em algum momento conseguir remover a água em uma velocidade superior à de entrada, caso em que poderíamos finalmente arrolhar os furos, e viver no seco.
Escrito por Alice Stock às 06h11
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Fiat lux!
Tenho que ir ao supermercado. Mas antes disso estou tentando encontrar uma saída mirabolante para publicar crônicas em algum lugar. ‘Faça um blog’, já me disseram, e depois outros disseram ‘não faça um blog, seus textos merecem mais do que isso.’ Cada vez mais desconfio que é melhor fazer mesmo um blog, por via das dúvidas achei melhor não perguntar para mais ninguém. Melhor fazer um blog.
Escrito por Alice Stock às 13h19
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